Anna Carolina Joppert

Anna Joppert
Tilburg University

Minha experiência de intercâmbio em Tilburg foi simplesmente incrível! Mas acho que todos os estudantes de intercâmbio acabam falando a mesma coisa. Afinal, as contribuições dessa experiência para a formação de cada um são ao mesmo tempo muito particulares e muito universais. Isso porque eu acredito que tudo aquilo que os alunos possam apontar como ganhos dessa oportunidade internacional podem ser traduzidos ou agregados em termos mais gerais, então acabam sendo bem parecidos quando reunidos em certos lugares comuns: maior independência, maior autonomia, maior desenvoltura, maior adaptabilidade, maior experiência cultural, maior desembaraço social, amadurecimento acadêmico e pessoal e   aprendizado ou desenvolvimento de uma nova língua, em muitos casos.

O Caso de Tilburg (internacionalização e vida social)

Em relação a Tilburg, em particular, eu diria que a instituição é muito internacionalizada  e por isso possui uma estrutura interna inteiramente desenvolvida para auxiliar os alunos intercambistas em tudo, desde a escolha e contratação da moradia perante uma empresa ou um locatário antes mesmo da saída do Brasil, passando por abertura de conta no banco até a inserção dos alunos em grupos e atividades sociais para integração imediata no momento de chegada. São vários eventos organizados todas as semanas e as vezes todos os dias (Semana de Orientação, Jantares Temáticos, Festas Temáticas e Grupos de Integração). Os alunos também são muito hospitaleiros, pois estão muito acostumados com esse ambiente internalizado, então é parte do dia-a-dia deles receber estrangeiros todos os semestres e interagir com pessoas de diferentes nacionalidades e culturas.

Quanto à vida social, como fica evidente, a vida estudantil é bem movimentada e espantosamente organizada e periódica. É quase metodológico (risos) e você inclusive recebe um calendário social quando se escreve na I*ESN. A organização é uma associação sem fins lucrativos (International Exchange Erasmus Student Network) de estudantes, que se dedica principalmente a intercambistas, e busca enriquecer a vivência e integração estudantil das cidades europeias. O curioso é que comentaram comigo inúmeras vezes por lá que a I*ESN Tilburg, que funciona com um escritório dentro da universidade, é a maior e mais ativa da Europa, o que faz muito sentido quando você vê a dimensão dos eventos e a estrutura deles por lá. 

Além disso, em termos mais gerais, olhando além da vida estudantil, os holandeses são bem parecidos com os brasileiros quanto à importância que dão a sua vida social e como gostam de festas, eventos e comemorações. O próprio hábito da bebida e do barzinho são muito fortes por lá. Mas outra particularidade da Holanda é que o país tem uma divisão informal entre Norte e Sul e, no geral, é possível afirmar que cada parte tem um perfil diferente. Nesses termos, Tilburg, que fica na parte Sul, é considerada como tendo um perfil mais boêmio e festeiro. Outra curiosidade e diferença estritamente ligada a isso é o hábito pontual dos estudantes e dos trabalhadores em ir para casa por volta das 17 ou 18 horas e jantar por volta das 18 ou 19 horas rotineiramente. Nunca vi na minha cidade ninguém jantar, e muito menos ficar no trabalho, tarde da noite durante a semana. Era bem curioso e reconfortante pedalar para casa nesse horário e ir sentindo o cheiro de comida sendo feita em todas as casas e ver todos os meus vizinhos, a caminho do apartamento, preparando suas refeições nas cozinhas, posicionadas sempre de frente pra rua e com janelas grandes e expostas. Vale notar que Tilburg é não somente uma cidade do sul, mas também uma cidade relativamente pequena comparado com outras cidades holandesas, e em termos brasileiros é quase uma vila (risos)!

Estilo e Custo de Vida

Eu fiquei num apartamento com outros intercambistas. A maioria dos alunos acaba alugando estúdios ou quartos em república de empresas ou locatários individuais nos arredores da faculdade. Mas como decidi ficar mais tempo queria um lugar mais confortável e com mais amenidades e organização. Em geral, comparado com outros países e cidades europeias, ainda mais numa cidade que não é capital, o custo de vida na Holanda é bem menor do que o custo em outros países europeus que são tipicamente destino de alunos de intercâmbio, como França e Alemanha, ainda mais se for considerado que vários custos corriqueiros podem ser evitados. Por exemplo, o principal meio de transporte no país é a bicicleta. Assim, o custo com transporte é muito reduzido, pois, salvo necessidade de conserto, depois do primeiro gasto com a compra de uma bicicleta usada, não é mais preciso gastar dinheiro, sendo possível ‘abastecer’ (encher os pneus) em quase todos os lugares. É desnecessário gastar com ônibus ou trem dentro da cidade e se evitando esse gasto diário como estudante é possível investir esse dinheiro de transporte em viagens nos finais de semana e feriados. A Holanda está muito bem integrada com o resto da Europa por trem e pode ser, por vezes, mais barato inclusive ir até a Bélgica ou a Alemanha do que viajar de trem para o norte do próprio país, como ir a Amsterdam,  por exemplo. Para quem está com o orçamento apertado, ônibus e sites de carona são outra alternativa barata e segura para circular a partir da Holanda por toda a Europa. 

Quanto à alimentação, eu via a Holanda em termos contraditórios. Um hábito que gostei demais era o tal do chá da tarde, um lanchinho normalmente envolvendo um doce e um chá ou café que é ocorrência quase religiosa entre amigos e colegas de trabalho por lá. Os próprios intervalos entre as aulas são arranjados para cobrir o tempo de deslocamento dos alunos e professores para ‘pegarem um cafezinho ou um chá’. O hábito é quase religioso e natural, não importa o que você tem que interromper, estudo ou trabalho, sempre haverá programada aquela pausa social para o lanchinho tipicamente europeu. Além disso, todas as cidades holandesas ainda giram em torno das suas feiras, principalmente de comida, e a qualidade desses produtos é espantosa. Todo dia é dia de feira em algum canto e você sempre encontra os produtos sempre frescos, muitos orgânicos e com periodicidade e pontualidades invejáveis de suprimentos. Por outro lado, mesmo com o grande suprimento de frutas, vegetais e folhas, como estudante é estudante em qualquer lugar do mundo, a maioria se alimenta pelo que é mais barato e fácil: muita fritura e gordura. E não se engane, não é a típica junk food americana, tem sim muita pizza, hambúrguer e batata-frita (todas invenções europeias apena popularizadas pelos americanos, diga-se de passagem), mas tem principalmente muitos petiscos locais e hábitos tipicamente holandeses: são bitterballens (bolinhos fritos), oliebollens (massas doces fritas), stroopwafels (waffles holandeses), speculaas (biscoitinhos amanteigados e de especiarias e pasta de mesmo sabor típico), appeltaarts (torta de maça holandesa), kibbelings (franguinhos fritos), hagelslags (confeitos de chocolate para pão) e poffertjes (panquequinhas holandesas) para todo canto.

Por que eu Recomendaria Tilburg

Eu recomendaria o intercâmbio lá a qualquer um que busca:

Qualidade do ensino: conhecer o estilo de vida e de estudo europeu de elevado padrão (academicamente e em termos de infraestrutura), pois Tilburg está entre as melhores universidades da Europa na classificação de vários rankings europeus e mundiais;

Dinâmica de cidade universitária: ter uma experiência mais estudantil e de viver numa cidade de estudantes com um campus e no qual toda a cidade gira em torno desse centro, o que é uma grande diferença em relação ao que vivenciamos na FGV, oferecendo outra experiência de vida estudantil e numa cidade universitária europeia;

Vida em cidade pequena europeia: estar num local movimentado culturalmente, mas sem os problemas de uma cidade grande e no qual as pessoas têm interações mais próximas (vida de cidade pequena), então não é muito parado como uma cidade de interior no Brasil, nem muito confuso e estressante como cidades grandes como o Rio de Janeiro ou Amsterdã;

Mobilidade e Cultura: estar num local que permite fácil circulação por toda a Europa, pois a Holanda está muito bem integrada por trem a todo o continente, sendo ainda fácil viajar de ônibus e por meio de carona, e sendo curioso como em alguns casos é mais rápido e mais barato viajar para a Bélgica do para outros locais dentro da Holanda (vantagens de um país pequeno e de fronteiras porosas); a título de exemplo, Tilburg se situa a 1 hora da Antuérpia e 1h30min de Amsterdam. A França, a Alemanha e Luxemburgo também estão a um pulo. Não acho que nenhuma viagem de trem para cidades mais distantes e conhecidas leve mais que 3-5 horas;

Especialização, ensino avançado e outras oportunidades: se especializar em algumas áreas ainda na graduação, é possível cursar matérias do mestrado na universidade e os LL.Ms de Direito Internacional Público e Direito Europeu, de Direitos Humanos, de Propriedade Intelectual e de Direito Societário e Tributário, sendo as áreas mais fortes da universidade; é possível ainda pegar matérias em quaisquer das outras escolas (Economia, Ciências Sociais, Administração e Marketing, Teologia ou Comunicação e Línguas) e tem que se levar em conta as feiras de estágio e palestras que rolam o ano todo e atraem empresas de toda a Europa; mas a ênfase pra mim foi direito internacional mesmo, sendo a Haia (capital política) considerada a capital do direito internacional e uma das cidades mais internacionais do mundo, competindo apenas com Genebra pelo maior número de organizações internacionais do mundo com sede por lá;

Aprender novas línguas: se pretende melhorar seu inglês acadêmico e pessoal, mas prefere ir para a Europa que para os Estados Unidos, pois saiba que os holandeses tem o inglês quase como segunda língua, ainda que não seja oficial, e são o país que melhor fala essa língua na Europa, sem a ter como língua materna; adicionalmente cursos de introdução, cursos intensivos e de muitos outros níveis são oferecidos aos intercambistas, bem como a escola de línguas possui vagas limitadas para outros cursos de idiomas, tudo incluso no seu ‘pacote acadêmico’.

Além disso, o estilo de vida, a economia e a cultura holandesas são um ‘plus’ que não podem ser descartados da equação. Na verdade, uma vez que eu cheguei lá, um mundo inteiro de cultura e hábitos novos e de oportunidades de estudo, estágio e trabalho se abriu, o que eu não esperava ao sair daqui e conhecer bem pouco sobre o país.