Evandro Sussekind

Evandro Sussekind
Bolsista do Programa Shanghai Summer School

13/07/2014

Apesar da diferença radical na cultura e na língua, com o tempo você se adapta bem à rotina. Temos aulas o dia todo, das 9 às 17 com intervalo para o almoço o que é um pouco desgastante mas sempre há energia de sobra para desbravar Shanghai. A única coisa que de fato parece incontornável é um certo desconforto com a alimentação.

Uma das coisas que sem dúvida me marca em Shanghai é que aparentemente há um abismo de distância entre os mais velhos e os jovens. Os primeiros, muito brutos, parecem mesmo ter sido moldados em um regime rude, de elogio à força. Os mais novos, são um banho de água fria para quem tem aquela visão estereotipada do oriente, seja a China comunista, ou o Zen budismo.  São jovens que, assim como seu governo persegue o PIB e o poder americano, perseguem o velho sonho americano. Uma casa, dois carros, etc. A estética é a mesma, as roupas, as marcas, tudo. As vezes parecem confundir se querem superar ou ser o ocidente. Essa quebra de paradigmas me interessa muito. As aulas também são interessantíssimas, e ainda que existam aqui e ali uns professores com uma péssima didática, eles por si só são uma aula viva sobre as regras de conduta do povo. É uma viagem que sem dúvida abre a cabeça, e deixa a impressão que, assim como os mercados, a academia pode muito em breve esquecer o eixo Europa X EUA e voltar seus olhos para outras possibilidades.

26/06/2014

Devido aos problemas com o visto, minha vinda para China só se confirmou quase no dia de embarcar. Obviamente eu queria muito vir, mas, concordando ou não com a Copa do Mundo no Brasil, estar aí agora é inegavelmente uma experiência interessantíssima de ser observada. Fato que é que, após quase 15 horas de voo eu estava fazendo conexão em Doha (Catar) enquanto o Brasil entrava em campo contra Camarões, e me preparava para mais 8 horas de viagem para desembarcar em Shanghai. Procurei não nutrir muitas expectativas, esperando tão somente desmistificar algumas ideias e confirmar outras.

Tinha certeza que encontraria, pelo menos em Shanghai, uma China extremamente ocidentalizada, mas o que vi até agora é uma busca quase desesperada nessa direção. Poucos hesitariam em dizer que a cidade com a qual Shanghai mais se parece é sem sombra de dúvidas Nova York. No entanto, por baixo desse pano e dos personagens caricatos que essa busca descontextualizada gera, podemos ver um país extremamente pobre, perdido entre o passado e o futuro. Ainda é cedo para dizer, mas culturalmente falando, parece que as mudanças radicais de paradigmas culturais moldaram uma espécie de mosaico, às vezes mais colorido e às vezes menos.

As diferenças entre o Brasil e China são infinitas, desde culinária até regras de convívio social, mas se assemelham em muito na desigualdade social entre aqueles que surfam essa nova onda e os que estão longe de ter um papel nessa última maravilha da humanidade que dizem ser o capitalismo de estado. Ainda assim, parece certo que se trata de uma experiência extremamente valiosa para qualquer um que se preocupe com os rumos do cenário político econômico e estou muito grato por vivenciá-la nesse momento de transição.

As aulas ainda não começaram, mas serão sem sombra de dúvidas essenciais para que eu possa ter uma ideia de como se organiza a vida acadêmica em uma sociedade com tamanhas peculiaridades. Certamente, terei boas lembranças ao partir.