João Pedro Fontes Zagni

Luisa Whitaker
University of Minnesota Law School
Apertem os cintos, porque o Diário de Bordo vai te levar dessa vez para a terra dos dez mil lagos.

 

A faculdade de direito
De verões vibrantes e invernos rigorosos, Minnesota é um Estado único. Durante meus dois intercâmbios na University of Minnesota Law School, uma das 20 melhores Law Schools dos Estados Unidos, tive a oportunidade de entrar em contato com alunos das mais diversas nacionalidades e culturas. O corpo docente da universidade se destaca nas áreas de Direito Internacional, Direito Internacional dos Direitos Humanos e Direito Constitucional, com forte enfoque no estudo da rule of law.
O período como estudante na universidade foi, de fato, uma incrível surpresa. Além de me inserir em um ambiente de estudos extremamente rigoroso, com altas cargas de leitura e aulas socráticas, onde os alunos são constantemente desafiados a articularem seu raciocínio jurídico baseado nos casos em pauta, tive a oportunidade de assistir duas aulas magnas que, definitivamente, marcarão minha memória dos “tempos de faculdade” para sempre: a primeira, com a ministra da suprema corte dos estados unidos, Ruth Bader Ginsburg, e, no ano subsequente, com o também ministro Antonin Scalia, hoje já falecido.
Pessoalmente, acredito ter sido uma honra inigualável ter tido a oportunidade de ter ouvido de perto a experiência pessoal de uma ministra pioneira no país em direitos das mulheres e igualdade de gêneros, assim como foi incrivelmente estimulante para meu crescimento reflexivo, em termos de raciocínio jurídico, ter presenciado o eloquente discurso originalista de Scalia. De posições jurídicas amplamente antagônicas, os dois ministros são verdadeiros ícones do pensamento jurídico americano e influenciarão por muitas décadas o estudo do direito constitucional e da rule of law.
O comparecimento de ministros da Suprema Corte dos Estados Unidos ou outras autoridades jurídicas de igual peso no início do fall semester tem se tornado tradição na University of Minnesota Law School, bem como a participação de autoridades convidadas em aulas é frequente. Em uma disciplina sobre os casos que mais influenciaram a história dos Estados Unidos, recordo-me de ter presenciado uma aula ministrada em conjunto entre o professor, pelo vice-presidente Walter Mondale (da gestão Jimmy Carter) e um jurista que fora Advogado-Geral da União. Tal padrão também se replica nas aulas de direito internacional e direito internacional dos direitos humanos, onde era recorrente recebermos diretores de organizações internacionais e ONGs, para falarem de diversos temas, tais como direitos das mulheres, tráfico humano, direitos sociais e econômicos.
É, também, digno de nota que não é incomum alunos e ex-alunos da instituição conseguirem vagas de emprego em organizações internacionais e ONGs internacionais. Diversas são as histórias de colegas que hoje trabalham ou vieram a trabalhar na Corte Internacional de Justiça, Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia – existe, até, um processo seletivo diferenciado ao TPI para alunos de University of Minnesota –, ONU, ou que hoje participam de iniciativas na proteção de direitos humanos, direitos sociais e direitos relativos à imigração, nos Estados Unidos, ou ao redor do mundo.
Ademais, além das aulas de contratos, direito empresarial, direito antitruste, direito constitucional, direito internacional dos humanos e direito internacional, tive a oportunidade de integrar alguns dos seminários que a faculdade oferece. Estes seminários consistem em turmas de até doze integrantes, onde os alunos são expostos a uma carga de leitura aprofundada em um tema específico do direito, sendo a avaliação final a produção de um artigo jurídico robusto escrito na língua inglesa, promovendo uma discussão consistente sobre o tema. Em meus semestres como estudante na instituição, foram oferecidos seminários em rule of law, psicologia social e direito, direito e economia, pena de morte e habeas corpus. A escolha do seminário sobre psicologia social e direito me rendeu, mais tarde, a produção do meu Trabalho de Conclusão de Curso, que tratou da temática envolvendo políticas públicas que levem em consideração o estudo da cognição social implícita.
Assim sendo, é certo que o intercambista que escolher a University of Minnesota Law School, após passar pela integração entre os estudantes, a intensa carga de leitura, produção constante de short papers requisitados por diversas disciplinas e ser desafiado constantemente em discussões jurídicas complexas, voltará ao Brasil não só com um inglês jurídico extremamente elevado, mas também perceberá uma elevação considerável em seu raciocínio jurídico e na habilidade de transitar entre diferentes tradições jurídicas, de modo a traduzir e aplicar, de maneira competente, conceitos e racionalidades da common law ao civil law, e vice-versa.
A vida universitária
Minnesota, todavia, não oferece apenas um ambiente acadêmico inspirador. O campus da University of Minnesota é extremamente vibrante, e possui uma infraestrutura totalmente diferenciada. Com aproximadamente 50.000 estudantes e um bairro dedicado apenas à moradia e vida dos estudantes universitários, com avenidas dedicadas exclusivamente às fraternidades e prédios exclusivos para a prática das mais variadas atividades físicas pelos estudantes e eventos esportivos, os dias e noites em Dinkytown proporcionam uma verdadeira experiência universitária norte-americana.
Sendo perfeitamente possível conciliar noites em claro estudando com outras noites dedicadas à imersão na vida universitária, como shows e eventos ao ar livre durante os verões, “pregames” no Sally’s Saloon, “Tailgates” em frente ao Floco Fusion, jogos de futebol americano do Minnesota Golden Gophers ou até mesmo do Minnesota Vikings, festas de fraternidades e outras house parties, bem como a famosa pizza do mesa pizza, cujo ápice de frequência se dá por volta das 2 da manhã, é fortemente aconselhável viver estas experiências. Minneapolis, em si, é uma cidade projetada de forma a proteger os moradores do inverno, ao mesmo passo de propicia uma diversidade única de lazer ao ar livre durante o verão, sendo certo que, nesta época, o visitante terá a oportunidade de fazer um verdadeiro tour pela cidade de bicicleta, pelo Midtown greenway – ciclovia que percorre a cidade inteira –; apreciar a beleza e arquitetura da cidade; visitar os diversos coffee shops e bares de uptown; se entreter em festivais de música e cultura nos diversos parques e lagos; cruzar a Stone Arch Brigde durante o pôr-do-sol e terminar a tarde assistindo uma sessão de cinema vespertina ao ar livre no parque ligado à ponte; se aventurar em trilhas perto do rio Mississippi e de Minnehaha falls; bem como aproveitar os food trucks e farmers markets que sempre se instalam todos as manhãs de domingo ao lado do Mill Ruins Park. Assim, especialmente durante o verão, não vale a pena se instalar na zona de conforto que Dinkytown propicia a todos os estudantes universitários.
E, não tenha receio de se misturar com os nativos! O americano do meio oeste é, de longe, o americano mais simpático, autêntico, de coração afetuoso, e sempre pronto para muita diversão e risada. De fato, uma das minhas maiores surpresas foi o quão acolhedores os americanos no campus se mostraram ser aos intercambistas, que me receberam como se eu já fosse um amigo de longa data.

O inverno

Ademais, não se importe com o inverno – a estrutura do campus é interconectada por túneis subterrâneos e uma rede de ônibus com monitoramento ao vivo. Mas, vá bem agasalhado. De fato, não há temperatura que não se torne tolerável com um bom aquecedor e um bom equipamento de proteção ao frio. Apesar de os verões chegarem ao pico de 35ºC, o ápice do inverno costuma alcançar temperaturas extremas. Não raro, a temperatura varia entre -11ºC e -20ºC durante o mês de dezembro.  
Aos que não planejam comprar ou alugar um carro, cabe pontuar que a cidade conta com uma quantidade de serviços excelente, e, assim sendo, há diversos aplicativos onde é possível pedir a entrega de compras de supermercado em casa, o que é extremamente útil nos dias de inverno. E, em uma nota final, para aqueles que não se acuam com o frio, cabe pontuar que as atividades ao ar livre não cessam durante o inverno. É muito frequente aos estudantes aproveitarem o inverno rigoroso para se aventurar em Minnehaha Falls, que congela completamente durante o inverno, fazendo a cachoeira se tornar uma verdadeira caverna de gelo.
Certo é, todavia, que viver em uma cidade onde o recorde de menor temperatura já alcançou -57ºF (-49ºC), onde, todos os anos, são publicadas notícias jocosas nos jornais apontando que Minnesota naquele dia estaria mais frio que o planeta Marte, é, definitivamente, uma boa história para contar e recordar.