Esta semana foi celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, no dia 20 de novembro, data que relembra o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares, principal líder da resistência negra à escravidão no Brasil. “A data foi criada como uma forma de resistência do movimento negro ao dia 13 de maio (data da Abolição da Escravatura), data que representou pouco ou nenhum avanço real nas condições de vida e emancipação da população negra brasileira”, analisa João Manoel, professor da FGV Direito Rio e membro do Comitê do Programa Diversidade da Escola.
Foram 300 anos de escravidão que deixaram marcas profundas e estruturais na sociedade brasileira, conforme explica o docente. “Após a abolição da escravatura no Brasil, os ex-escravos não fizeram o caminho que seria natural de se tornar a base do proletariado nacional. Este lugar foi ocupado por imigrantes brancos europeus que vieram em viagens subsidiadas pelo Estado brasileiro”, conta. Para ele, as marcas desse período são evidenciadas hoje em dia com a falta de pessoas negras ocupando espaços de liderança e de poder, apesar de serem a maioria da população brasileira atual (54%, segundo o IBGE). “Não se trata de uma minoria, mas de uma maioria totalmente excluída e sub-representada”, avalia.
Além de um líder da resistência negra à escravidão, João Manoel ressalta que Zumbi dos Palmares é um dos principais heróis nacionais. “Importante ressaltar que ele integra uma grande lista de lideranças negras não raro ignoradas na historiografia oficial do Brasil, que conta com nomes como Ganga Zumba, Luiza Mahin, João Cândido, Luiz Gama, José do Patrocínio, André Rebouças, Francisco de Paula Brito, etc”, pontua.
Sobre o Programa Diversidade da FGV Direito Rio, do qual é membro do Comitê, João analisa que se trata de um primeiro passo muito importante em direção à promoção da diversidade na Escola e que é essencial que a diversidade seja uma prática concreta e experiência cotidiana na instituição. O Programa Diversidade foi criado com o objetivo de abraçar a pluralidade e coibir discriminações através de políticas internas que visam consolidar a nossa Escola como um ambiente acadêmico inclusivo, plural, acolhedor e criativo
Por fim, o professor cita outros nomes que o inspiram.
Entre as figuras históricas:
Toussaint L’ouverture: Liderou a Revolução Haitiana organizando um exército de ex-escravos que derrotou os exércitos francês e espanhol. A Revolução que ele liderou culminou na Constituição Haitiana de 1804.
Luiz Gama: Advogado autodidata que libertou mais de mil escravos utilizando processos judiciais, além disso foi um prolífico jornalista e poeta, introduziu a poesia satírica como gênero literário no Brasil.
Entre os(as) autores(as) preferidos:
Kwame Ture e Charles Hamilton: Autores do livro “Black Power: the politics of liberation”, um livro magistral para entender a dinâmica do racismo estrutural nas sociedades contemporâneas.
Neusa Souza Santos: autora do livro fundamental “Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social”.
Clóvis Moura: autor do livro “Sociologia do negro brasileiro”, um clássico para compreender a profundidade das raízes da escravidão na formação da sociedade brasileira e como seus impactos negativos se estendem até hoje, além disso tem uma análise detalhada sobre o funcionamento do Quilombo de Palmares.
Ron Karenga: Ativista e professor americano que desenvolveu o conceito de “sevenfold path of blackness”, uma ideia ainda pouco desenvolvida no Brasil, mas muito útil para mostrar como nós negros podemos resistir e lutar contra o racismo em nossas vidas cotidianas
Celestin Monga: autor do livros “Niilismo e negritude” e “Um Banto em Washington”, dentre outros.
Abdias do Nascimento: organizador do livro “O negro revoltado”, uma coletânea de ensaios e discursos deste intelectual e militante que foi um dos principais líderes negros brasileiros do Século XX.